terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Teresópolis e eu

Conheci Teresópolis em 1952, quando o acesso ainda era por Petrópolis, quase o dobro da distância atual, acompanhando meu avô em suas visitas a uma tia reclusa no convento das Carmelitas Descalças. Em 1959, quando foi inaugurada a estrada direta meu pai comprou um pequeno apartamento na Várzea, que todos frequentávamos com prazer, e anos depois comprei meu sítio na Fazenda Garrafão. Hoje estamos no Alto há bons anos, juntos com a filha, uma das netas e o bisneto primogênito, elas e ele no Condomínio Comary e nós no igualmente privilegiado bairro do Taumaturgo, uma ilha de tranquilidade mesmo no sossego da cidade - às vezes, ao ir tomar sol na pracinha em frente, brinco com minha mulher que vou descer para ver a falta de movimento...
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O bairro é exclusivamente residencial, por enquanto e consiste em apenas duas ruas paralelas, ligadas à principal avenida da Cidade, unidas por três transversais, por onde circula de hora em hora um micro-ônibus da charmosa linha Cascata dos Amores, em cujos letreiros se alterna o nome do destino com uma simpática mensagem de Bom dia, Boa tarde ou Boa noite, conforme o horário. É o mais parecido com o que conhecemos como trânsito, mas como almoçamos fora todos os dias, preferimos usar o carro, já que todos os bons restaurantes locais têm estacionamento próprio ou próximo.
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O mundo gira e a Luzitana roda, divulgava o reclame da transportadora da minha infância, mas as engrenagens da especulação imobiliária ainda não moeram o bairro somente por estar em boa parte limitado pela intocável Mata Atlântica que o circunda, mas já há mansões com grandes terrenos ostentando preocupantes placas de vende-se nos muros. Mais do que um risco, é um fato cuja concretização, porém, não deve ser mais para nossos tempos...

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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A ciranda, o ovo e a galinha

A ciranda é uma dança de roda popular em Pernambuco, em que os participantes dão-se as mãos formando um grande circulo enquanto cantam e ponteiam, como elos de uma ondulante corrente humana. Quando estive em Recife a trabalho, nos anos 1970, certa noite me deparei com a tradicional ciranda da Boa Viagem, que acontecia numa espaçosa praça conhecida como Terminal e não resisti ao chamamento do canto e da coreografia, que evocavam as brincadeiras de roda de minha infância numa rua sem saída da Tijuca. Após alguns minutos de observação para captar o ritmo e o refrão, lá estava eu integrado àquela gente, mais gente entre tanta gente, mais um elo na corrente.
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Até recentemente havia na Avenida N.S. de Copacabana dois tradicionais estabelecimentos da área de alimentação, de propostas similares, um em cada lado da via e ambos a poucos metros da esquina com a rua Santa Clara, o restaurante Cirandinha, no lado impar, cujo nome nenhuma relação explícita teria com a dança nordestina e o Gourmet 280, em frente, um misto de padaria, lanchonete e restaurante self-service de apelo indeterminado. Faziam parte e eram elos comerciais da cada vez menor ciranda de ícones da história de Copacabana.
O Cirandinha, bem mais antigo, ocupava uma loja estreita e comprida com pequena lanchonete aberta na entrada, onde as vitrines de um balcão em formato de ferradura exibiam, além dos cansados salgadinhos engordurados de boteco - coxinhas, croquetes, rissoles e empadas - as especialidades da casa que eram ovos cozidos envoltos por crosta à milanesa e imensos e caros camarões empanados, que podiam ser acompanhados por um chope geladíssimo e bem tirado. No espaço restante funcionava a portas fechadas um discreto restaurante refrigerado à la carte, com o pouco movimento liderado por idosos.
Ovos cozidos e algumas vezes até coloridos, são um clássico petisco dos botecos tradicionais ora em extinção, são nutritivos, simples e baratos, embora complicados para descascar. Assim, os empanados do Cirandinha logo me conquistaram pela apresentação, e fui consumidor fiel por anos até que seus donos, emparedados pela estagnação empresarial do negócio, jogaram a toalha e o local se transformou em mais um apertado e anódino supermercado. Com os ovos, foi-se mais um elo da ciranda gastronômica popular de Copacabana.
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O Gourmet 280 ocupava uma área bem maior, dividida entre uma padaria interessante pela variedade e qualidade dos seus produtos, incluindo o naipe de salgadinhos, e um inexpressivo restaurante a quilo. Era mais novo e moderno, e bem movimentado. Oferecia na lanchonete a preço camarada um petisco que equivalia a um almoço, uma exuberante sobrecoxa de frango empanada que parecia ser a evolução natural do ovo do Cirandinha após atravessar a Avenida. Não sei se o ovo nasceu primeiro que a galinha, mas a sequência dos recentes acontecimentos e a forma como se desligaram da ciranda de tradições do bairro, empobrecendo seu folclore gastronômico, sugere essa opção. Passei um tempo fora e quando retornei à roda o restaurante havia dado lugar a uma farmácia, mais uma, como que confirmando minha intuição. O ovo evoluiu e gerou uma galinha, desta vez mais uma asséptica galinha dos ovos de ouro.

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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sobre idosos e a morte que cai bem

Fui encaminhado à antessala do centro cirúrgico, no final de um longo corredor ladeado por quartos de portas abertas, onde se viam idosos adormecidos mantendo no rosto cones de plástico de auxílio à respiração. Uma cena atual, perturbadora e triste que estranhamente me lembrou o peculiar carnaval de Veneza, marcado por patéticas máscaras ornadas com plumas e dotadas de enormes bicos, que pretendem expressar alegria mas são apenas melancólicas. E que evoca também equipamento usado mais remotamente por gladiadores para proteger o rosto, quando em luta pela vida nas arenas. São situações diferentes em cenários diversos, voltados para um objetivo comum de difícil consecução, dadas as circunstâncias - a sobrevivência.
Evoé, Momo! Morituri te salutant.
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A enfermeira, simpática, pediu:
- Senhor, pode retirar e me entregar a prótese.
- Que prótese?
- Os dentes, a dentadura, senhor.
- São naturais, querida.
- Sei ...
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A semana foi marcada pela promulgação da lei que criou uma nova classe de idosos, a dos velhos preferenciais - aqueles que têm mais de oitenta anos. Não é nada, não é nada, não é nada mesmo e acho que os idosos carentes iriam preferir outro tipo de atenção à prioridade nas filas. Seja como for, o assunto suscitou algumas reflexões ligadas ao quesito velhice e em especial ao tema indesejado, mas inescapável, de como enfrentar e amenizar as sequelas gerais da visita amarga da Velha Senhora. Com esse enfoque ganha espaço na sociedade esclarecida a figura do testamento vital - documento feito enquanto você está consciente das suas decisões e que especifica quais são os tratamentos e procedimentos aos quais deseja (ou não) ser submetido em uma situação terminal, tudo abordado com clareza e objetividade no texto sugerido.
Vamos viver e desfrutar a vida com alegria e encantamento, enquanto nos for concedida essa benção, mas sem descuidar dos procedimentos capazes de humanizar seus nem sempre amenos desdobramentos finais.

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Meu avô materno e os brilhos da infância

Depois de alguns anos sem contato pessoal, devido às distâncias e desvios dos caminhos da vida, reencontrei na internet a família do meu tio mais novo, irmão caçula e temporão de minha mãe, hoje com 90 anos. Ao ver as fotos, pouco antes do dia dos pais, e dada a marcante semelhança física, lembrei do meu avô, com quem tive escasso mas saudoso relacionamento durante um curto e conturbado período de minha infância.
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Vovô Rogério era italiano e veio criança para o Brasil aos cuidados de parentes, como era comum na época. Foi registrado como brasileiro e logo que cresceu foi à luta, como também era costume na época. Radicou-se no estado do Espírito Santo, prosperou nos negócios, casou-se e teve nove filhos - cinco homens e quatro mulheres, entre elas minha mãe.
A memória recua aos nove anos, quando os percalços da Segunda Guerra Mundial desestabilizaram financeiramente várias famílias, inclusive a minha. Com o pai convocado e servindo ao Exército, fomos acolhidos na casa de meus avós maternos, compartilhada ainda com uma tia casada e sua família, e demais irmãos solteiros.
O avô era joalheiro, comercializava pedras preciosas, e passava a maior parte do tempo viajando, sempre portando uma maleta preta com divisões internas forradas em veludo também preto, onde reluziam gemas de bom tamanho e alto valor, junto com pequenos e caprichados embrulhinhos, que enfeixavam dezenas de pedras menores. Uma atividade impensável e quase suicida nos dias de hoje.
Era elegante, sério, discreto e falava baixo e pouco - apesar da sua origem peninsular.Tinha paixão pela sua atividade, e quando chegava de viagem fazia questão de nos mostrar as novidades, deixando todos fascinados com o brilho dos diamantes e o variado colorido das outras pedras. À noite, com filhos e netos reunidos à sua volta, abria prazerosamente a maleta em cima da mesa da sala, sob adequada e dramática iluminação, iniciando um ritual já conhecido mas sempre aguardado com ansiedade, quando metódica e didaticamente nos exibia cada peça comentando nome, pureza, tipo de lapidação e outras características que não compreendíamos bem, mas nos deixavam magnetizados mesmo assim.
Hoje, transcorridos tantos anos dessas tertúlias, a lembrança estratificada desses deliciosos momentos ratifica o entendimento que nos contatos afetivos o que importa não é a sua frequência, mas a intensidade da relação. 





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quarta-feira, 12 de julho de 2017

Memórias: a Fazenda São João

A sabedoria popular aconselha não revisitar locais onde fomos felizes. O tempo passa e as coisas mudam, mas a decepção é certa. Motivado por uma referência ao excelente programa de cadastramento e visualização das propriedades rurais do Vale do Paraíba, desenvolvido pelo Inepac-Rio, e estimulado pelas facilidades digitais resolvi correr o risco e fazer uma sentimental visita virtual à Fazenda São João, que no passado distante frequentei com alegria. Se foi decepcionante constatar o ocaso de um ciclo social e produtivo que não integrei, mas tive o privilégio de ocasionalmente vivenciar, foi gratificante ter identificado em cada marco remanescente uma boa lembrança, um episódio inusitado, ou uma amizade efêmera que se perdeu no tempo. Foi doído, mas valeu!


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A Fazenda São João, fundada no início do século XIX, com foco na produção de café em grande escala, tinha originalmente 1.210 cafeeiros espalhados em 236 alqueires geométricos, e seu sucesso comercial valeu ao proprietário ser agraciado com a comenda imperial da Ordem da Rosa, em 1858. As seguidas vendas e secessões por herança, agravadas pelo fim do ciclo econômico do café, provocaram seu encolhimento e decadência. No final da década de 1940, quando a frequentei, estava reduzida a uma fração da área original, embora bem cuidada, e se sustentava com uma produção residual de café, leite e derivados, além de processar cana em cachaça, açúcar mascavo e rapadura.


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Era complicado chegar lá. Embora geograficamente localizada em Paraíba do Sul, o acesso era feito por trem até Vieira Cortez, e de lá à propriedade em lombo de cavalo, num percurso de quase três horas. Um telegrama enviado com bastante antecedência para a posta restante combinava tudo e o caminhão que fazia a coleta diária do leite das fazendas se encarregava da entrega - ele era, aliás, o único meio de comunicação regular entre o vilarejo e as propriedades, e eventualmente transportava passageiros, correspondência e pequenos volumes. Os cavalos que conduziriam os visitantes ao seu destino eram levados cedo á estação ferroviária por um peão, e na volta se arrastavam a passo lento pela estrada poeirenta, mas iam ficando mais espertos na medida em que se aproximavam de casa e após passar a última porteira até precisavam ser contidos, tal a ânsia em alcançar as cocheiras. Assim como eles, nós visitantes também espantávamos o cansaço e ganhávamos novo alento ao ver surgir no horizonte a sede da fazenda, com sua longa e simples varanda linear pontilhada por janelas e enfeitada internamente com pinturas murais, contraditoriamente escoltada pela exuberante capela dedicada a São João Nepomuceno, o mártir da discrição. Ainda bem cuidada, embora com pitadas de modernização, como as janelas basculantes de ferro que substituíram as originais de madeira na varanda, a construção contrasta com o cenário desolado do entorno.

 

 


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A lavoura de café foi a responsável pelo desmatamento na fazenda, seu apogeu econômico e o panorama atual de incipiente desertificação. A plantação original foi feita em terras de mata derrubada, como era costume na época, e quando os cafeeiros abandonados morreram sem que fosse feito o indispensável remanejo de culturas, o solo se degradou. No grande pátio em frente à varanda era feita a secagem solar dos grãos do café, que já haviam passado pelos tanques de lavagem diretamente após a colheita. Chegavam em pequenas carroças basculantes, a carga derramada era pachorrentamente espalhada e revirada pelos colonos com o uso de grandes rodos de madeira, e o lindo tapete mesclado pela variedade de cores dos grãos, exalava ao calor do sol um inconfundível e inesquecível aroma misto de terra molhada e café. Como esse processo passou a ser feito mecanicamente e em caldeiras, toda a beleza plástica do processo evaporou junto com a umidade.


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Não havia energia elétrica, mas a fazenda dispunha de uma usina simples, composta por uma roda d'água e um gerador de baixa capacidade. Um mesmo riacho supria as necessidades da casa, movia a roda e enchia os tanques de lavagem do café, que serviam de piscina na entressafra. A claudicante energia gerada só era suficiente para alimentar algumas poucas lâmpadas fracas e um rádio de válvulas, estilo capelinha, que junto com os receptores de galena montados por alguns moradores habilidosos era o centro das atenções às sextas feiras, quando ia ao ar um programa com o festejado ator, compositor e cantor Vicente Celestino. Acompanhado reverentemente por todos, dono de um vozeirão inconfundível e de um repertório um tanto brega e sinistro, alguns de seus sucessos - O Ébrio, Coração Materno, Porta Aberta etc. - ficaram marcados e até hoje ecoam na minha memória.


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Um pequeno canavial sustentava a produção artesanal de cachaça, açúcar e rapadura, sendo a cana esmagada em moenda movida por tração bovina, num processo lento e pouco eficiente. O bagaço residual era picado num cortador manual e dado como ração ao gado, e a cachaça destilada era envelhecida em grandes toneis de madeira, instalados com o alambique em galpão à parte.Tudo era devagar naquela época e naquele lugar, com as coisas acontecendo em ritmo mais ou menos inercial, sem grandes surpresas ou sobressaltos mas com impacto suficiente para marcar minha juventude e justificar a revisita nostálgica ao passado. Tudo considerado, talvez não tenha sido uma má ideia...




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