quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Meu avô materno e os brilhos da infância

Depois de alguns anos sem contato pessoal, devido às distâncias e desvios dos caminhos da vida, reencontrei na internet a família do meu tio mais novo, irmão caçula e temporão de minha mãe, hoje com 90 anos. Ao ver as fotos, pouco antes do dia dos pais, e dada a marcante semelhança física, lembrei do meu avô, com quem tive escasso mas saudoso relacionamento durante um curto e conturbado período de minha infância.
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Vovô Rogério era italiano e veio criança para o Brasil aos cuidados de parentes, como era comum na época. Foi registrado como brasileiro e logo que cresceu foi à luta, como também era costume na época. Radicou-se no estado do Espírito Santo, prosperou nos negócios, casou-se e teve nove filhos - cinco homens e quatro mulheres, entre elas minha mãe.
A memória recua aos nove anos, quando os percalços da Segunda Guerra Mundial desestabilizaram financeiramente várias famílias, inclusive a minha. Com o pai convocado e servindo ao Exército, fomos acolhidos na casa de meus avós maternos, compartilhada ainda com uma tia casada e sua família, e demais irmãos solteiros.
O avô era joalheiro, comercializava pedras preciosas, e passava a maior parte do tempo viajando, sempre portando uma maleta preta com divisões internas forradas em veludo também preto, onde reluziam gemas de bom tamanho e alto valor, junto com pequenos e caprichados embrulhinhos, que enfeixavam dezenas de pedras menores. Uma atividade impensável e quase suicida nos dias de hoje.
Era elegante, sério, discreto e falava baixo e pouco - apesar da sua origem peninsular.Tinha paixão pela sua atividade, e quando chegava de viagem fazia questão de nos mostrar as novidades, deixando todos fascinados com o brilho dos diamantes e o variado colorido das outras pedras. À noite, com filhos e netos reunidos à sua volta, abria prazerosamente a maleta em cima da mesa da sala, sob adequada e dramática iluminação, iniciando um ritual já conhecido mas sempre aguardado com ansiedade, quando metódica e didaticamente nos exibia cada peça comentando nome, pureza, tipo de lapidação e outras características que não compreendíamos bem, mas nos deixavam magnetizados mesmo assim.
Hoje, transcorridos tantos anos dessas tertúlias, a lembrança estratificada desses deliciosos momentos ratifica o entendimento que nos contatos afetivos o que importa não é a sua frequência, mas a intensidade da relação. 





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