quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A ciranda, o ovo e a galinha

A ciranda é uma dança de roda popular em Pernambuco, em que os participantes dão-se as mãos formando um grande circulo enquanto cantam e ponteiam, como elos de uma ondulante corrente humana. Quando estive em Recife a trabalho, nos anos 1970, certa noite me deparei com a tradicional ciranda da Boa Viagem, que acontecia numa espaçosa praça conhecida como Terminal e não resisti ao chamamento do canto e da coreografia, que evocavam as brincadeiras de roda de minha infância numa rua sem saída da Tijuca. Após alguns minutos de observação para captar o ritmo e o refrão, lá estava eu integrado àquela gente, mais gente entre tanta gente, mais um elo na corrente.
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Até recentemente havia na Avenida N.S. de Copacabana dois tradicionais estabelecimentos da área de alimentação, de propostas similares, um em cada lado da via e ambos a poucos metros da esquina com a rua Santa Clara, o restaurante Cirandinha, no lado impar, cujo nome nenhuma relação explícita teria com a dança nordestina e o Gourmet 280, em frente, um misto de padaria, lanchonete e restaurante self-service de apelo indeterminado. Faziam parte e eram elos comerciais da cada vez menor ciranda de ícones da história de Copacabana.
O Cirandinha, bem mais antigo, ocupava uma loja estreita e comprida com pequena lanchonete aberta na entrada, onde as vitrines de um balcão em formato de ferradura exibiam, além dos cansados salgadinhos engordurados de boteco - coxinhas, croquetes, rissoles e empadas - as especialidades da casa que eram ovos cozidos envoltos por crosta à milanesa e imensos e caros camarões empanados, que podiam ser acompanhados por um chope geladíssimo e bem tirado. No espaço restante funcionava a portas fechadas um discreto restaurante refrigerado à la carte, com o pouco movimento liderado por idosos.
Ovos cozidos e algumas vezes até coloridos, são um clássico petisco dos botecos tradicionais ora em extinção, são nutritivos, simples e baratos, embora complicados para descascar. Assim, os empanados do Cirandinha logo me conquistaram pela apresentação, e fui consumidor fiel por anos até que seus donos, emparedados pela estagnação empresarial do negócio, jogaram a toalha e o local se transformou em mais um apertado e anódino supermercado. Com os ovos, foi-se mais um elo da ciranda gastronômica popular de Copacabana.
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O Gourmet 280 ocupava uma área bem maior, dividida entre uma padaria interessante pela variedade e qualidade dos seus produtos, incluindo o naipe de salgadinhos, e um inexpressivo restaurante a quilo. Era mais novo e moderno, e bem movimentado. Oferecia na lanchonete a preço camarada um petisco que equivalia a um almoço, uma exuberante sobrecoxa de frango empanada que parecia ser a evolução natural do ovo do Cirandinha após atravessar a Avenida. Não sei se o ovo nasceu primeiro que a galinha, mas a sequência dos recentes acontecimentos e a forma como se desligaram da ciranda de tradições do bairro, empobrecendo seu folclore gastronômico, sugere essa opção. Passei um tempo fora e quando retornei à roda o restaurante havia dado lugar a uma farmácia, mais uma, como que confirmando minha intuição. O ovo evoluiu e gerou uma galinha, desta vez mais uma asséptica galinha dos ovos de ouro.

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