domingo, 25 de abril de 2021

A CASA DE MINHA AVÓ E O JARDIM ZOOLÓGICO

 No momento em que a cidade do Rio de Janeiro se prepara para receber um renovado Jardim Zoológico, com anunciadas inovações para conforto dos animais e visitantes, lembro da casa da minha avó materna em Vila Isabel, um sobradão com vários quartos colado ao antigo e então abandonado Jardim Zoológico, que se tornou uma extensão natural do quintal pois bastava pular o muro para desfrutar daquele paraíso secreto, com suas árvores frutíferas, lagos, fontes, pequenos animais e pássaros, muitos pássaros. Durante parte da Segunda Guerra Mundial nela nos apertamos com tios e primos temporariamente sem teto e sem fundos, numa fraterna e precária socialização de necessidades, antecipando o conceito atual de coletivo. A instituição criada pelo Barão de Drummond, raiz do jogo do bicho carioca, é pedra basilar na construção das minhas memórias afetivas infantis.

No térreo do sobrado havia uma pequena loja, ocupada por um sapateiro italiano, sujeito muito magro e alto, dono de um respeitável nariz e com insuspeitado registro vocal de tenor, que aos sábados reunia conterrâneos, abria uma garrafa de vinho, tocava bandolim e cantava lindas árias de óperas e do cancioneiro popular peninsular. Era mágico e triste ver seus dedos retorcidos e manchados de tinta manusearem a palheta com delicadeza e sensibilidade, extraindo do instrumento sons que dançavam pela pequena loja como os de um órgão numa catedral, e angustiante a nostalgia que permeava os cânticos. Minha infância foi marcada por passagens inesquecíveis, e esta foi uma delas.
O tempo passou e a área sofreu intervenções diversas, até se transformar no atual Parque Recanto dos Trovadores. Se a sua conservação não é a ideal, pelo menos ainda permite o desfrute de parte de suas funcionalidades e a renovação de lembranças infantis, entre elas a da saga de um modesto trovador italiano que premonitoriamente antecipou o futuro do recanto.
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Aproveite o link e conheça as histórias e a História de como um jardim de bichos se transformou num Recanto dos Trovadores.





segunda-feira, 12 de abril de 2021

O CASTELINHO DO LEME (2)

O movimento de vacinação levou os holofotes da zona sul a se voltarem para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Leme, mas provavelmente poucos dos que a visitaram, muitos pela primeira vez, atentaram para a interessante construção ao lado conhecida como Castelinho do Leme. Sede administrativa de um estacionamento construído nos fundos do terreno, o imóvel tem o mesmo padrão arquitetônico do templo e ostenta uma torre que justifica o apelido, foi edificado por Margareth Coney Ligonto, a Miss Coney, adorada professora inglesa que em 1919 fundou o Colégio Anglo-Americano, e teria sido por ela doado à congregação cristã vizinha com cláusula impeditiva de sua descaracterização.

Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, eu tinha nove anos de idade e pretendia prestar concurso para o Colégio Militar, mas meu pai, que era professor no Anglo, foi convocado para o serviço ativo no Exército em outra cidade, inviabilizando meus planos. Sabedora de minha frustração, Miss Coney generosamente me acolheu em sua casa, onde morei por mais de um ano, e financiou meus estudos preparatórios e parte do período inicial no Colégio Militar, onde consegui ingressar. Foi uma fase que marcou positivamente minha vida para sempre.

Visitei o local recentemente, já parcialmente transformado em estacionamento pelo retrofit, consciente de ser o único sobrevivente daquele período; encontrei o casarão bem conservado, vazio de móveis e pessoas mas pleno de inesquecíveis lembranças e memórias amigas. Dias antes tivera a confirmação que Miss Coney era uma pessoa especial: encontrei na web uma entrevista do ex-chanceler Azeredo da Silveira em que conta ter sido aluno do Anglo quando seu pai foi preso por razões políticas e precisou abandonar os estudos por falta de dinheiro para pagar as mensalidades. Sabedora do problema, Miss Coney assegurou-lhe total gratuidade enquanto perduraram as dificuldades, criando condições para sua vitoriosa carreira diplomática. Miss Coney não teve filhos biológicos, mas foi como uma mãe reconhecidamente presente na formação dos seus milhares de alunos.


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sexta-feira, 2 de abril de 2021

O JARDIM SECRETO

Na história de Frances Hodgson Burnett  que gerou um filme, uma órfã de 10 anos vai viver com um tio viúvo em um castelo na Inglaterra. Lá encontra um pequeno lorde, seu primo recluso, doente e isolado em um dos quartos, conhece outro rapaz, filho de uma aldeã, e os três descobrem um incrível jardim abandonado, que decidem revitalizar. A amizade entre as crianças e a interação delas com a natureza operam uma surpreendente transformação no jardim e em todos da casa. O livro é lindo e o filme sublima sua mensagem, a de que um jardim, mesmo abandonado, tem o dom mágico de distribuir amor e alegria. 

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Depois de alguns anos na árida Brasília, me instalei na frenética Copacabana de muito mar e areia e poucas plantas, o avesso de um passado que até então incluiu casas com jardim e quintal em bairros mais comportados. A muralha de concreto dos prédios colados da Avenida Atlântica, seccionada apenas pela Praça do Lido, separa o azul do mar do verde da pouca mata ainda restante nos fundos, mas não os interliga. O urbanista até foi sensível e salpicou algumas árvores aqui e ali no calçadão, tentando amenizar o deserto vertical, 
mas foi só. Com o advento da pandemia, ficou progressivamente mais angustiante para os confinados a carência do verde alternativo das plantas e das cores variadas das flores, e cansativo o neutro das areias, lindo de longe quando tingido pelo azul do mar, mas escaldante e extenuante de perto. O jardim de nossa história é uma metáfora sobre limites e superação, sobre carências e reclusão, e impacta de forma decisiva o destino dos personagens. Assim como o meu jardim secreto.

 

O Edifício Luiz de Camões, na Avenida Atlântica (no centro da foto) onde moro é tecnicamente uma torre, ao contrário dos demais da orla, pois ocupa todo o terreno na esquina de três ruas, tem as quatro fachadas livres, todos os seus apartamentos são de frente e é separado dos prédios ao lado por um jardim de grandes vasos, com muitos arbustos e flores, espaço esse  que é secreto, por não ser visível das ruas; suspenso, por estar alguns degraus acima do nível da calçada; e panorâmico por ter vista aberta para o calçadão e a praia.  

 

Assim como na historinha da órfã, o meu jardim secreto distendeu a tensão da reclusão forçada, permitiu contatos sociais seguros, ampliou os horizontes para além das paredes do apartamento e, melhor que tudo, estimulou meu viés de memorialista eventual. Sentado numa cadeira de praia num cantinho, viajei na cápsula embolorada do tempo, ruminei episódios felizes e outros nem tanto mas, sobretudo, como se diz por aí, fiz do limão uma limonada... 




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terça-feira, 16 de março de 2021

MÁSCARA NEGRA


- "Tanto riso, oh quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão"...
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Em tempos de máscaras que lembram sofrimento, vale a pena recordar a Máscara Negra que despertava alegria nos frequentadores da icônica cervejaria Canecão, quando sua animada bandinha celebrava o riso e a alegria dos mais de mil palhaços no salão. Fechado há pouco mais de 10 anos e abandonado desde então, levou com ele o famoso mural de Ziraldo que emulava a "última ceia" e insuspeitadamente se tornou um registro do "último chope", degustado por Geremias, o Bom e seus sedentos seguidores.
-"Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade"
(Zé Ketti, 1966)

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

MUSEU DE CIÊNCIAS DA TERRA

 


 
Foto: Carlos Luis M.C. da Silva 

O Museu de Ciências da Terra foi  foi inaugurado em 1909 e é considerado um dos mais ricos da América Latina por suas coleções de minerais, meteoritos, rochas, fósseis e documentos únicos relacionados à memória geológica. São mais de 10 mil amostras de minerais (brasileiros e estrangeiros) e de meteoritos, além de 12 mil rochas e 35 mil fósseis catalogados. Sua biblioteca dispõe de aproximadamente 100 mil volumes de publicações relacionadas à área de geociências. Conta, ainda, com uma rica biblioteca infantil para o desenvolvimento de oficinas e atividades educativas e culturais. Está instalado na Avenida Pasteur, Urca, em um imponente prédio tombado de estilo neoclássico tardio conhecido como Palácio da Geologia. que foi projetado e teve sua construção iniciada pelo engenheiro, professor e empresário Antônio de Paula Freitas por encomenda do imperador Dom Pedro II,  para abrigar a Faculdade Nacional de Medicina, e atualmente está em obras após um incêndio que atingiu uma de suas alas,  Em 1908, porém o palácio foi escolhido para ser o pavilhão do Brasil na Exposição Nacional comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos e no ano seguinte passou para o patrimônio do Ministério da Agricultura, sediando definitivamente o Museu.
Se, durante algum tempo, a grandiosidade e imponência do edifício do intimidou visitantes, aos poucos, o Museu foi se afirmando como espaço público de inclusão social por meio da divulgação científica e das transformações implementadas para engajar os visitantes, com destaque para as atrações do acervo e as atividades educativas ali desenvolvidas, o que inclui exposições itinerantes e a grande interação com escolas públicas e outras entidades educacionais.

 Antônio de Paula Freitas, o criador do prédio, nasceu em 1843, filho de pai português e mãe brasileira, era o mais velho de oito irmãos e perdeu o pai aos 12 anos de idade. Apesar disso, graduou-se
engenheiro Geógrafo e Civil e 
doutor em Ciências Físicas e Matemáticas pela antiga Escola Politécnica, onde foi também professor catedrático. Destacou-se em atividades profissionais e acadêmicas no reinado de D. Pedro II, tendo sido agraciado com as três comendas da Ordem da Rosa. Recebeu a prestigiada Medalha Hawshaw, honraria de origem inglesa atribuída a quem se destacasse por trabalhos acadêmicos na área da Engenharia. Foi presidente do Instituto Politécnico Brasileiro, membro do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, do Instituto dos Engenheiros Civis de Londres, da Sociedade Francesa de Higiene, da Diretoria do Congresso Científico Latino-Americano, da Administração do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, redator da Revista da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e Engenheiro da Irmandade da Igreja da Candelária, tendo sido responsável pelas obras de revitalização e expansão do templo e pela instalação dos seus monumentais portões de bronze. Como empresário presidiu a empresa que adquiriu as terras e promoveu a urbanização, saneamento e desenvolvimento do bairro de Copacabana. Projetou e construiu o Edifício Sede dos Correios, na rua Primeiro de Março, e o prédio da Tipografia Nacional, na Avenida Treze de Maio, demolido em 1940 para revitalização do Largo da Carioca. 

 
Antônio de Paula Freitas


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